André Le Nôtre : rei dos jardineiros, jardineiro do Rei


O Palácio de Versalhes, cuja origem remonta ao século XVII, foi sucessivamente retiro de caça, um lugar de exercίcio do poder monárquico, até ser reconvertido no museu dedicado « À todas às Glόrias da França », no século XIX.

Atualmente, o Domίnio de Versalhes se estende por mais de 800 hectares. Além do Palácio, do Domίnio de Trianon (palacetes Grand Trianon e Petit Trianon), do parque, os jardins de Versalhes são uma atração a parte, indissociável da visita a Versalhes, mesmo no inverno.

Da janela central da Galeria dos Espelhos, é possίvel avistar a grande perspectiva que dirige o olhar do visitante ao eixo leste-oeste, prolongado pelo Grande Canal, imaginado por André Le Nôtre, o jardineiro de Luίs XIV, criador do jardim à francesa.

E é de André Le Nôtre, um dos personagens que mais admiro da histόria da França, o grande idealizador dos Jardins de Versalhes, de quem quero falar nesse post.

André Le Nôtre (1613 – 1700)

 

Uma dinastia de jardineiros

André Le Nôtre nasceu em uma famίlia de jardineiros : seu pai e seu avô são jardineiros encarregados do jardim das Tulherias (o Tuileries, perto do Louvre). A partir de 1633, ele frequenta o prestigiado atelier de Simon Voeut no Louvre, primeiro pintor do rei Luis XIII, com quem é iniciado à arte da perspectiva. Experiência decisiva em sua carreira. O desenho foi a base de seu aprendizado artίstico. Aos 12 anos, sucedeu ao seu pai nas funções de jardineiro do rei e de paisagista/planejador de jardins. Le Nôtre explorou inúmeras disciplinas, do desenho à horticultura, passando pela όptica, a pintura ou a arquitetura, marcando o século XVII com a criação dos mais belos jardins da França.

 

 

Datas-chaves da carreira de André Le Nôtre

1613

Nascimento de André Le Nôtre, dia 12 de março, em Paris.

1637

Nomeado jardineiro do Rei Luίs XIII, como assistente de seu pai, também jardineiro de profissão.

1643

Morte de Luίs XIII, Luίs XIV torna-se rei da França.

 1643

André Le Nôtre é nomeado desenhista do Rei Luίs XIV.

1661

Le Nôtre inicia as primeiras obras para Versalhes.

1700

André Le Nôtre morre em Paris, aos 87 anos, dia 15 de setembro.

 

Versalhes : um territrio destinado a arte de Le Nôtre

Sob o Antigo Regime, jardins e parques eram realizados como uma extensão dos castelos, ligados a um territόrio que gerasse renda, prestίgio e poder. Complementares, porém, distintos, o jardins são separados dos parques fisicamente, mas ambos são ligados visualmente, por meio de canais transversais, grades, muros e bosques. Assim, o jardim se abre em direção ao parque, que se abre em direção às rotas de caça – a exemplo de Versalhes.

Com o domίnio da topografia e competências de um arquiteto e de um engenheiro hidráulico, Le Nôtre frequenta a Academia de Ciências, onde adquire conhecimentos em geometria όptica. Com tal experiência, ele esculpe de forma inédita, a água, o mineral e o vegetal, integrando de forma magistral e simétrica, alamedas, bosques, fontes, esculturas, canteiros e espelhos d’água, fazendo dos Jardins do Rei « Sol » uma verdadeira obra de arte, que reforça o prestίgio de Versalhes através de toda a Europa.

Controlador geral de Obras, Artes e Manufaturas, Jardineiro oficial da Corte, Le Nôtre teve uma relação estreita de amizade com Luίs XIV, com quem compartilhava a mesma paixão por jardins e obras de arte.

A Famίlia real faz parte de sua prestigiada clientela, bem como ministros e famίlias aristocratas. Le Nôtre foi ainda solicitado por soberanos estrangeiros que conheciam seus projetos pessoalmente ou através de seus embaixadores ou arquitetos. Para atendê-los, ele trabalhava à distância enviando seus colaboradores de confiança, munidos de mapas realizados por ele, com diretrizes precisas.

Rigoroso e incansável, André Le Nôtre trabalhou durante 65 anos e também colaborou com projetos como a criação do eixo da Champs-Elysées e criação de rodovias de acesso a Versalhes ou a Saint-Germain-en-Laye.

A herança de Le Nôtre para o paisagismo contemporâneo

Ao longo do séculos até os dias de hoje, na França e no estrangeiro, profissionais, gestores de parques, paisagistas e historiadores, se interrogam sobre a herança e a evolução da obra de André Le Nôtre e sua influência para o paisagismo contemporâneo.

O Bosquet do Théâtre d’eau planejado por Le Nôtre para ser palco de festas no reinado de Luίs XIV,  já vinha sendo degradado e foi devastado pela  inesperada tempestade de 1999, que afetou drasticamente alguns bosques dos domínios de Versalhes.

A direção de Palácio empreendeu a recuperação desse bosque através de um concurso público. O Bosquet do Théâtre d’eau foi reinterpretado então, em 2015, pelo paisagista Louis Benech e o artista plástico Jean-Michel Othonel, responsável pela concepção das fontes do bosque, três verdadeiras esculturas compostas de esferas de vidro de Murano, como pérolas de ouro em arabescos, obra inspirada em danças reais de Luίs XIV e nos desenhos de Le Nôtre.

 

Já perdi a conta das vezes em que visitei Versalhes e seus jardins a passeio ou como Guia de turismo e me pergunto sempre, se gosto mais do palácio ou dos jardins.  Cada um tem seu interesse e beleza particulares. De todo modo, considero palácio e jardins, complementares e de uma riqueza única.

Merci Le Nôtre. Vive le Roi!

Vaux-le-Vicomte, Chantilly, Fontainebleau … conheça outros belos jardins nos arredores de Paris, também realizados por André Le Notre. Nesse link.

 

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